sábado, 29 de maio de 2010

Soul Kitchen

Soul Kitchen:


Chegou o dia! O dia em que tenho de usar uma expressão muito querida de críticos "a sério". A razão é este novo filme do Fatih Akim e a razão é o restaurante que dá o nome ao filme, o Soul Kitchen.

E aqui vem a expressão: neste filme, é o próprio restaurante o personagem principal. Está dito e é verdade! Não deve ser por acaso que o filme tem este nome, não é? Se fosse outro o personagem principal, se calhar o filme chamar-se-ia Zinos Kazantsakis, ou assim.

O grande problema é que o realizador não se deve ter apercebido disto enquanto fazia a montagem final, porque se por um lado enquanto o filme está centrado no dia-a-dia do Soul Kitchen a coisa funciona bem, quando o foco muda para as pessoas que dele dependem a coisa dispersa-se muito e torna-se até um bocado exagerada (estou a pensar numa das últimas imagens da festa final, com a senhora das Finanças). É pena, mesmo, porque até estava a gostar muito do filme, mas depois de descarrilar nunca mais voltou ao que era.

Se calhar estão a pensar "se o restaurante é o melhor do filme, os personagens humanos e os actores que os representam devem ser mesmo maus", mas não é bem o caso...até não estão nada mal (sobretudo Zinos, o protagonista, interpretado por um tal de Adam Bousdoukos) enquanto são mostrados como pessoas normais - caso da relação entre Zinos e a (ex) namorada, Nadine - mas não funciona a partir do momento em que, talvez por falta por tempo para os aprofundar mais, são apresentados como meras caricaturas.

Ainda assim o filme é engraçado. Não é uma comédia desbragada, longe disso, mas deixa-nos bem dispostos durante algum tempo e essa boa disposição tem dois grandes responsáveis, a banda sonora funk/soul de primeira qualidade (mesmo!) e - voltando ao tal personagem principal não humano - o ambiente do restaurante, que nos deixa a pensar que deveria existir um igual em todas as cidades.

Eu vi-o porque amei o trailer (vejam também, acho que vão gostar), vocês vejam se puderem, mas não o considerem uma prioridade

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans

Bad Lieutenant: Port of Call New Orleans:


Quem está atento a este blog e - ao mesmo tempo - esteve atento à programação do Indie Lisboa deve a dada altura ter feito esta pergunta: então o gajo lá daquele blog do cinema está sempre a dizer que adora o Werner Herzog e não me vai ver um dos dois filmes dele que passam no Indie? É verdade, não fui mas foi por um bom motivo: ver o FCP ganhar 5-2 ao Vitória de Setúbal.

Foi um leap of faith arriscado, na verdade, porque presumi que o filme fosse estrear comercialmente mas podia ter-me lixado à grande. Felizmente não me lixei. Vamos por isso à crítica do primeiro dos dois filmes do Werner Herzog que passou no Indie Lisboa 2010.

Antes de mais digo que gostei mais deste que do My Son, My Son, What Have Ye Done?. É uma história mais profunda, com lugar a mais sensações que a constante estranheza que se vai sentindo neste (mas, claro, não deixa de haver estranheza!). Aqui há espaço para relações familiares, relações amorosas e até (mais) humor, nem que seja por estarmos perante uma das melhores representações do que eu imagino deva ser estar-se high on crack. Digamos que, fazendo paralelos com o David Lynch, se o My Son... era um Lost Highway este é mais um Blue Velvet.

Falo em Lynch porque, apesar deste filme ser anterior à colaboração entre os dois realizadores mais marcantes da minha adolescência cinematográfica, já se notam aqui vários traços do senhor que nos trouxe o Twin Peaks. O primeiro deles é, claro, a surrealidade de algumas cenas (como é que é possível ver-se o acidente provocado pelo crocodilo sem se lembrar do Straight Story?), surgindo aqui maioritariamente através das visões do protagonista, Terrence McDonagh.

O protagonista é outro desses pontos de ligação, já que é interpretado por um actor de quem já falei recentemente, e que aqui consegue superar outra das suas grandes interpretações, no Wild at Heart, do Lynch. Falo do Nicolas Cage e não é difícil dizer-se que é ele que faz o filme. Qualquer outro actor (ou ele mesmo, num dia mau) poderia levar este personagem a excessos que fariam do filme uma parvoíce pegada, enquanto que aqui conseguiu um equilíbrio perfeito entre demência e humanidade.

A história não é original. Não só porque este é um remake de um filme de 1992 (que não vi, mas se tivesse visto diria - como tantos os outros críticos - que só mesmo o título é que é partilhado pelas duas obras), mas também porque estamos perante uma história bastante frequente: um polícia que era bom (or was he?) passa por uma tragédia, torna-se viciado para a superar, faz merda (muita merda!) para manter o vício, mas acaba por se safar através do amor e da sorte (ou será que aquilo era planeado?).

A diferença é que esta história aparentemente normal é realizada por um realizador extraordinário (e que, mais uma vez partilho a opinião com grande parte dos críticos, voltou a fazer ficção ao nível da sua obra dos anos 70/80) e com uma interpretação que também não é menos que extraordinária. Diz-se que o Nicolas Cage poderá ser o novo Klaus Kinsky (imagem estranha, no link) na carreira do Herzog e se assim for só vos digo uma coisa, queridos leitores, preparem-se para uma avalanche de filmes geniais!

Estes dois, juntos, podem ir muito longe.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Fish Tank

Fish Tank:


A filmografia dos EUA (já para não falar da produção televisiva) é bastante prolífica em representar o que por lá se chama de white trash. A versão inglesa dessa realidade não tem o mesmo nome - a Wikipedia fala-nos em Chav's mas os meus leitores ingleses poderão elucidar-me melhor - e não é tantas vezes retratada.

Neste Fish Tank é e, e compensando a quantidade com qualidade, é-o muito bem. Mas este é um filme muito mais profundo que uma mera tentativa de mostrar uma realidade specífica da sociedade britânica.

É verdade que, sobretudo no terço inicial do filme, ao seguirmos Mia (uma brilhante Kate Jarvis, a mostrar na sua primeira interpretação que o nome Jarvis é bom presságio para artistas ingleses) vamo-nos apercebendo sobretudo das difíceis condições de vida nos bairros de habituação social em terras de sua majestade. Durante muito tempo pensamos que é disso que trata o filme, um aquário que do pouco nos mostra o muito.

Mas a dada altura, num movimento que não é um twist mas que muda a direcção da história quase a 180º, começamos a aprofundar outra realidade...a dos abusos familiares que grassam no interior daquelas casas. Tanto no que toca à violência entre uma mãe (Kierston Waring, com uma igualmente boa interpretação) e as suas duas filhas, como no que toca ao abuso (emocional e não só) entre o namorado da mãe, Connor, (o grande Michael Fassbender), a mãe e Mia que, carente de uma figura paternal, confunde muito as coisas e se liga demasiado ao único adulto que não a afasta.

As coisas tornam-se feias, mas no final de contas - talvez mesmo na última cena - fica uma réstia de esperança. Esperança que aquela jovem tenha conseguido encontrar uma saída para aquele mundo, condenado a repetir-se. Ela parte, talvez para um futuro igual ao presente, mas com a esperança que o passado não se repita. E é essa esperança que se vê no seu sorriso, a caminho da "terra das baleias".

Tecnicamente, só tenho a referir mais duas coisas. Em primeiro lugar as bonitas imagens que por vezes surgem quase como separadores - não têm muito a ver com o resto do filme, mas que ficam ali muito bem. Finalmente, uma nota não tão positiva para a banda sonora...que faz todo o sentido naquele contexto (é a música que aqueles jovens ouvem!) mas que não me consegue entrar na cabeça

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Estômago

Estômago:


Este filme brasileiro de 2007 surgiu um bocadinho "do nada" nas salas de cinema portuguesas em 2010 mas eu, que não me canso de sorrir sempre que vejo que tenho tantos leitores em terras de Vera Cruz, não o deixei escapar.

Digo que surgiu do nada não só pelos 3 anos que já passaram desde a data de estreia (original) do filme mas também porque, apesar de vir cotado com alguns prémios - nomeadamente o Grande Prémio Vivo do Cinema Brasileiro 2009, não o consegui achar realmente bom e estou certo que há mais e melhor cinema de onde este veio.

Se me perguntarem porque é que não gostei não vos consigo responder muito bem. Na verdade, este foi um dos filmes em que mais me demorei a decidir se gostava ou não do que estava a ver. Normalmente, estou convencido (ou não) na primeira meia hora e neste foi preciso chegar quase à última cena para tomar posição.

A nível de interpretações está bastante bem. A do protagonista, João Miguel, já foi bastante elogiada por outras críticas e está realmente bem conseguida, se bem que me pareceu que deu ao seu Nonato um toque demasiado tonto, a roçar o atraso mental, que não deveria estar presente. Já a interpretação de Fabiula Nascimento, no papel da prostituta Íria, merece elogios igualmente rasgados, pela grande dimensão humana que traz a uma fábula que poderia pecar pela ausência de um grande papel feminino.

Não sendo a interpretação que me deixou por convencer, acho que é mesmo a história que não pega o suficiente para cativar. É interessante ver como a paixão e o jeito para a cozinha servem para que um nordestino sobreviva na grande metrópole (e na prisão!) mas a estrutura baseada em flashbacks e flashforwards não funciona, deixando-nos sempre com a sensação de que estamos a ver um filme...nunca passamos a barreira da tela, o que acontece (e deve acontecer) nos grandes filmes.

Em abono da verdade, essa estranheza talvez tenha sido potenciada por um problema muito específico que julgo já ter referido por aqui. O português do Brasil é facilmente perceptível pelos portugueses, mas neste tipo de filmes (em que há muitos sotaques regionais e bastante calão) fica difícil acompanhar todas as falas. E se isso não ajuda, o som completamente afunilado (não cheguei a perceber se era falha do filme ou da sala de cinema em si) ainda mais contribuiu para que Estômago tivesse apenas um efeito concreto em mim: estava cheio de fome quando saí do cinema.