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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Koniec Lata

Koniec Lata:


Koniec Lata (O fim do Verão, em polaco) é uma curta metragem de 32 minutos que nos apresenta a realidade de uma escola militar russa. Nele ouvimos os testemunhos de jovens de 7, 11 e 16 anos e - em geral - vemos como a escola funciona.

Em Portugal existem também algumas escolas militares e apesar de conhecer algumas pessoas que lá estudaram confesso que nunca abordei com elas o assunto. É por isso que aproveito agora para perguntar a algum leitor que tenha essa experiência: é normal haver tanta desumanização dos alunos destas escolas? Em nenhum momento deste filme se testemunha qualquer cena de violência ou de antipatia dos mais velhos para com os mais novos (antes pelo contrário), mas fiquei com a impressão de que as crianças que ali entram saem mais autómatos que adultos. Talvez seja essa a ideia fundamental da instrução militar, mas quando o testemunho incomoda-me.

Tomemos como exemplo o jovem de 7 anos que apresenta o seu testemunho: é comandante da "1.ª tropa" (na escola observada os anos dividem-se por tropas) e tem como funções observar e garantir a organização, respeito e disciplina dos seus camaradas. Até aqui tudo bem, nós também temos delegados de turma (existem na escola primária? Não me lembro), mas um dos corolários dessa sua função é ter de avaliar quinzenalmente os seus colegas, em público (perante a turma e os professores) dizendo-lhes o que fizeram de mal e como deveriam corrigir. Parece-me um pouco demais para sete anos, mas - verdade seja dita - o nosso "comandante" parece gostar.

Por nos mostrar esta realidade tão distante (geografica e mentalmente) este documentário merece ser reconhecido. Está bem filmado, bem estruturado e mostra aquilo que parece querer mostrar desde o início, que as escolas militares (pelo menos as russas) podem ser uma boa solução para educar crianças num país tão grande que faz com que o exército seja a única instituição verdadeiramente nacional, mas essa educação traz como consequência o retirar da juventude aos jovens que recebe.


Filme no âmbito do DocLisboa 2011. Foi hoje a última das duas sessões.

domingo, 19 de junho de 2011

Rewers

Rewers:

  
Rewers é um filme polaco que poucos ou nenhum de vocês irá ver, mas deviam. Deviam porque se trata de um filme bastante interessante, que merecia uma distribuição mais alargada.

É um daqueles casos em que o conteúdo é menos importante que a forma, e juro que não estou a dizer isto por não a ter compreendido completamente. Se esta história fosse contada de uma forma mais normal, por assim dizer, não tinha metade da piada.

Aliás, digam-me vocês: a história de uma rapariga solteira que vive com a mãe e a avó num apartamento que não se rende aos seus tempos, a Polónia de 1957, parece-vos interessante? Mesmo que as insistências de avó e mãe em arranjar namorado à rapariga levem o argumento para terrenos mais próximos de um thriller de espionagem?

Pois agora juntem-lhe um look tipo Jean-Pierre Jeunet. A coisa já se torna mais gira, não é? Pois é esse look que dá uma data de pontos ao filme. Borys Lankosz (o realizador) consegue manter o interesse visual durante toda a sessão e até as escolhas de casting (nomeadamente Agata Buzek, a protagonista que aparece no poster lá mais para cima) parecem perfeitas para ajudar ao look cartoon que só pode ser propositado.

Imaginem o Sin City filmado com meios e um orçamento adequado à Polónia - que, não duvidem, é bem superior ao português - e conseguem ficar com uma boa ideia do que se passa em Rewers.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Ile Wazy Kon Trojanski?

Como sabem, aqui há uns tempos estive de férias e durante essas férias estive na Alemanha e na Polónia. O cinema alemão já vou conhecendo mais ou menos, o polaco nem por isso (não conhecia nada tirando o Kieslowski e o Skolimowski). Essa situação vai alterar-se em breve; trouxe uma série de DVD de lá e por isso não estranhem se nos próximos tempos o marcador Polónia daqui do blog cresça um bocadinho.

Como primeiro destes filmes polacos escolhi o




O título desta comédia/romance fantástico (as in cinema fantástico, não fantástico por ser bom) significa "Quanto pesava o cavalo de Tróia?" e, para ser muito honesto, é o elemento mais profundo de todo o filme...mesmo tendo em conta que a história envolve viagens no tempo.
A história é 1/3 Back to the Future, 1/3 Goodbye Lenin! e 1/3 Friends: no ano 2000, na véspera do seu quadragésimo aniversário, Zosia (Ilona Ostrowska, igual à Courteney Cox - daí o Friends) deseja voltar a ser mais nova. Pouco tempo depois esse desejo é concretizado, claro, mas de uma forma mais literal do que o desejado: Zosia viaja no tempo (não se sabe nem interessa como) e - tendo adormecido na Varsóvia de 2000 - acorda na Varsóvia de 1987, ainda sufocada pela URSS (daí o Goodbye Lenin).

Com uma moral de "cuidado com o que desejas" Zosia vai ter de tentar reverter o seu desejo. Isto porque, ao ter ficado mais nova Zosia voltou a estar casada com o idiota do seu primeiro marido (igual ao Sean Penn), vai ter de re-engravidar da sua filha e tentar com que o segundo marido se apaixone novamente por ela.

A ideia do filme é tentar apelar pelas cenas de fish out of water (Zosia mantém a mentalidade e conhecimentos de 2000 em 1987) e pelo eventual romantismo a extrair da tentativa de reconquista do (actual?) marido. Esse segundo aspecto não resulta de todo (ou então sou eu que sou um insensível) e mesmo o primeiro só tem duas ou três piadas dignas de nota. Talvez para um Polaco a coisa funcione melhor, mas eu não fiquei nada convencido com este trabalho do realizador Juliusz Machulski.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Indie Lisboa dia 7: Essential Killing

Essential Killing:



Antes da SMR propriamente dita, um desabafo. ODEIO saber informação importante sobre o filme antes de o ver e desta vez, por causa de uma simpática crítica de uma simpática revista semanal do nosso simpático país soube uma dessas informações. Estragou-me completamente o filme? Não, mas tornou-o completamente diferente!

E agora avancemos para a SMR, sem essa informação.

Falar-se de um thriller quando nos referimos a este filme é capaz de ser exagero. Se é verdade que enquanto dura preocupamo-nos com o destino do protagonista (Vincent Gallo, actor perfeito para o papel) mas ao contrário do que deve ser a base de qualquer bom thriller e dadas as circunstâncias em que se encontra sabemos desde cedo qual será o final da história. Ou não...eu achei-o óbvio, mas à saída do cinema ouvi gente a defender um desfecho contrário.

Claro que não vos vou dizer quais são essas possibilidades, mas digo-vos que Essential Killing, do polaco Jerzy Skolimowski, é um filme de sobrevivência. De forma semelhante a um Alive (para mim o melhor filme deste género) ou a um 127 Hours, o protagonista (que o IMDB diz que se chama Muhammad, mas eu não ouvi esse nome durante o filme inteiro) está, basicamente, lixado. Tal como no Alive, está no meio da neve; tal como no 127 Hours está absolutamente sozinho. Ao contrário de qualquer um desses exemplos, está a ser perseguido pelo exército americano. Há que convir que isso é chato.

A culpa é realmente do talibã (sim, ele é talibã). Não fosse ele ter feito o que não devia e já não estava naquela situação...mas será que a culpa é só dele? Não..não fossem os americanos o tratarem como um animal e o torturarem selvaticamente e provavelmente desistiria mais cedo e rendia-se.

No entanto, para ser verdadeiramente honesto convosco, acho que a atribuição de culpas é mais importante para a conversa intelectualó-politizada pós-filme do que para a história propriamente dita. A culpa pode ser do talibã (da mamã?) mas mesmo que não fosse, e mesmo que os americanos não fossem culpados tampouco, mesmo que ninguém tivesse culpa de nada a mensagem que passa passava na mesma: todos nós, por muito pouco preparados que estejamos, faríamos tudo para sobreviver.

Essential Killing mostra-nos isso sem precisar de recorrer ao gore e ao canibalismo. De uma forma muito mais contida, talvez fruto da escola europeia de cinema, faz-nos torcer por um homem que, sendo um terrorista, acaba o filme completamente vulnerável, voltando ainda que mentalmente ao seu lugar seguro.

Já aqui referi o Vincent Gallo mas quero mesmo sublinhar isto: este papel não poderia ter sido melhor entregue! Posso não concordar com algumas das suas ideias (mesmo achando que só podem ser a gozar!) mas aqui, enquanto actor, mostra o que, se eu não fosse um crítico de cinema para aqueles que não têm paciência para críticos de cinema chamaria de tour de force de interpretação contida.

Resumindo, que estou cheio de sono: Essential Killing é um bom filme que, mercê das suas paisagens fabulosas e da sua grandeza de escala, merece ser visto num ecrã de cinema. Não passa é novamente no Indie, por isso façam figas que estreie em sala.