quinta-feira, 28 de abril de 2011

Black Dynamite

Black Dynamite:


No poster oficial de Black Dynamite, este mesmo que está aqui em cima, pode ler-se a seguinte frase: "Cuz there ain't no hope for dudes who deal dope". Esta frase, meus senhores, diz tudo.

Black Dynamite (lê-se "dái-no-maite", como somos relembrados umas 300 vezes durante o filme) é um órfão afro-americano, com um afro do tamanho do mundo, que acontece ser perito em artes marciais e decidir dar porrada em tudo e todos (literalmente todos, mas não vou dizer quem são esses todos, seria um spoiler muito grande) até conseguir vingar a morte do seu irmão junto daqueles que o mataram e, pior ainda, vendem droga aos órfãos do orfanato. (
"The orphans? Not the orphans! I used to be an orphan!")

Claro que com uma história destas e uma frase como a que citei dá para perceber que este filme não é sério. Se a isto juntarem um look dos anos 70, na onda do que o Machete tentou fazer aqui há uns tempos mas em muito melhor, todos os clichés dos filmes blaxploitation usados com grande qualidade e o melhor interlúdio de conversa entre a porrada para que se perceba a lógica do protagonista de todo o sempre (tão, mas tão bom!) temos um filme absolutamente hilariante que nem mesmo aqueles que nunca viram o tipo de filmes que este tenta recrear vai poder dizer que é mau. Já há algum tempo, mais precisamente desde o Panique au Village, que não me ria tanto - não deve ser coincidência o facto deste filme ter passado no mesmo cinema no mesmo dia em que vi o Panique...


Podia dizer muitas mais coisas, mas fico-me por dizer que se se querem rir como o c*ralho (sim, usei um palavrão para demonstrar o quão bom este filme é) têm absolutamente de ver este filme. É genial! Quanto ao resto das palavras deixo-vos algumas citações do guião:


Gloria: [
after Dynamite kills a would-be assasin in a donut suit] How did you know?
Black Dynamite: Because donuts don't wear alligator shoes.

Black Dynamite: Your knowledge of scientific biological transmogrification is only outmatched by your zest for kung-fu treachery!

Mo: So how you do on that little midget girl you sent out?
Chocolate Giddy-Up: She keep coming up short!

Como disse no início, está tudo dito!
E quão bem (ou propositadamente mal) que dizem o que têm a dizer e fazem o que têm a fazer. Nós só temos de nos deliciar com esta pequena obra-prima da comédia que nem sequer teve exibição regular em Portugal.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Road to Nowhere

Olá olá amiguinhos! Estão bons? Tiveram saudades minhas? Eu também.

Depois de um merecido período de férias cá estou eu a iniciar aquele que normalmente é o período mais atarefado do ano neste blog. Este ano infelizmente vou ver muito menos filmes do Indie Lisboa (trabalho a quanto obrigas) mas entretanto vou animando isto com os filmes que ficaram em atraso por causa das férias. O primeiro chama-se Road to Nowhere e aqui está o que tenho a dizer sobre ele.

Road to Nowhere:


Road to Nowhere é um filme esquisito, com o título de uma música dos Talking Heads que não me sai da cabeça sempre que penso nela (see what I did there?) e realizado por um realizador que não fazia nada há uma data de tempo (22 anos, para ser mais preciso) mas de que, apesar de provavelmente ser conhecido o suficiente para criar o buzz que me levou a vê-lo, devo admitir nunca ter ouvido falar antes. Sou uma vergonha, eu sei.

A história é o que se chamaria de filme dentro de um filme, com actores a fazer de actores dentro do filme dentro do filme e que tem o condão de não nos dizer qual é a realidade. Temos nós de lá chegar por nós próprios ou pelas análises na Internet, claro.

O realizador, Monte Hellman, é 14 anos mais velho mas deve ter andado na mesma escola que o meu amigo David Lynch...ambos pegam em várias realidades e deixam-nos a nós a tarefa de decifrar qual delas é a real e quais são os sonhos/filmes que devemos interpretar como tal. Ambos parecem gostar de cidadezinhas pequenas, perdidas algures nos EUA, e neste caso concreto ambos parecem estar apaixonados pelas possibilidades do cinema digital (este filme foi integralmente filmado numa máquina fotográfica digital Canon 5D Mark II, e isso nota-se).

Mas para além desta ligação óbvia existe uma outra menos óbvia mas que desde logo me surgiu mentalmente: as tentativas de Mitchell e Laura em passar para o cinema a história de Velma Duran fizeram-me lembrar o State & Main, uma comédia do David Mamet com o William H. Macy que vi há uns bons 10 anos e sobre a qual nunca mais tinha pensado até ver este Road to Nowhere.

A diferença entre ambos os filmes é que o outro mostrava a comédia por detrás deste tipo de ocorrências durante a rodagem de um filme este trata os assuntos de uma forma séria. Demasiado séria. E o problema dessa abordagem séria é que a coisa se torna aborrecida muito rapidamente (tipo, logo a primeira cena, com o secador de cabelo).

Monte Hellman não encheu esta história com os mil e um pormenores que sempre encontramos num filme do David Lynch e leva-se demasiadamente a sério: o resultado desta equação é um filme interessante enquanto experiência mas demasiado lento para que nos verdadeiramente em explorar a multiplicidade de mundos que oferece.

domingo, 17 de abril de 2011

Vacances!

Boas tardes, jovens deste Portugal e do mundo.

Quero avisar-vos de que este blog esta de chamadas vacances e por isso a coisa vai estar parada de hoje a 27 de Abril.

Espero que vos seja possível manter a alegria de viver. Nada de depressões até ao meu regresso, ok?

Beijinhos e abraços

A Gerência

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Hævnen

Hævnen:



Aqui há uns tempos vi e analisei um filme norueguês que partilhava a actriz principal com este filme, dinamarquês, que chega até nós já com o Óscar de melhor filme estrangeiro no currículo.

Esse filme chama-se De Usynlige e lida com as consequências de um erro cometido no passado. Este filme, Hævnen, partilha por isso algo mais que a actriz Trine Dyrholm, partilham também a sua temática. A grande diferença entre estes dois filmes é a perspectiva temporal: enquanto que a Noruega nos trouxe os dramas de um jovem que já fez a asneira, a Dinamarca mostra-nos a escalada da violência que leva à tal asneira e, só mais mitigadamente, as suas consequências.

Hævnen mostra-nos a violência em dois contextos diversos: inicia-se matreiramente num campo de refugiados, onde Anton (Mikael Persbrant) trabalha, algures em África, mas rapidamente se muda para a Dinamarca, onde o seu filho faz amizade com Christian (William Jøhnk Nielsen), um jovem bem mais problemático do que parece e o verdadeiro personagem principal desta história.

A violência em África tenta ser chocante mas em abono da verdade não é assim tanto, tão conhecidas que são as histórias reais iguais ou piores que todos os dias acontecem em lugares como aquele. Mais chocante é a reacção de Anton (ou a falta dela) a essa violência, que indirectamente nos faz a todos pensar "isto vai correr mal" quando, mais tarde, essa reacção (ou falta dela) tem consequências no Norte da Europa.

Isto porque Christian tem andado a desencaminhar Elias (Markus Rygaard), o filho do nosso médico sem fronteiras.

Com uma atitude nietzschiana, Christian proclama odiar "todos os que desistem"; para ele a melhor resposta não é dar a outra face mas antes espetar um selo na face do outro e se no contexto escolar a coisa dá asneira, fora dele - quando se tenta vingar de uma injustiça cometida contra o pai do seu amigo - a asneira terá consequências bem mais graves.

Elias não tem a mesma atitude desafiadora do seu amigo Christian (o nome será uma coincidência?)...é muito mais medroso/racional e se calhar é por isso que que se torna a maior vítima de toda esta história: é ele a vítima de bullying antes da chegada de Christian à sua escola e é ele a maior vítima da sua má, se bem que não mal intencionada, influência a partir do momento em que travam amizade.

Christian não deixa de ser, porém, uma outra vítima: vítima das circunstâncias que trouxeram drama à sua vida e da incapacidade que o seu pai (um típico homem de negócios ausente) tem em o educar emocionalmente.

O título português deste filme é "Num mundo melhor" e nesse mundo melhor vai ser a amizade com Elias que acabará por salvar Christian e será Christian a reestruturar o mundo de Elias. Resta no entanto saber se num mundo melhor existirá lugar à verdadeira redenção.

Hævnen é um filme passado, em grande parte, no mundo das crianças, mas os seus problemas são de adultos. O filme em si também é muito adulto, contido e de grande qualidade. Só o posso, por isso, recomendar.

sábado, 9 de abril de 2011

The Fighter

The Fighter:



Como referi na anterior SMR uma coisa curiosa da "awards season" é que a seguir a ela ficamos sempre umas boas semanas sem bons filmes a estrear. Assim, em vez de ir ver o Hall Pass ou o Morning Glory resolvi actualizar a minha lista de filmes oscarizáveis deste ano e ver o The Fighter, último dos grandes nomeados que não vi e, sem dúvida, uma melhor aposta.

E agora a SMR propriamente dita.

Muitas vezes o maior entrave à verdadeira grandeza é um pequeno pico de glória a que nos deixamos prender. É isto que acontece com Dicky Eklund (Christian Bale, tão bem como seria de esperar mas mesmo assim pior que o Geoffrey Rush no The King's Speech), um boxeur de Lowell, Massachusetts que, preso à glória de um dia (quase) ter deixado K.O. o Sugar Ray Leonard nunca mais foi ninguém, acabando por se deixar cair no mundo da droga.

O The Fighter do título não é, porém, a de Dicky mas sim a do seu irmão mais novo, Micky Ward (Mark Whalberg), também ele boxeur e também ele a travar uma luta particular.

Neste caso o seu adversário não são as drogas, o seu adversário é a sua própria família...o seu irmão Dicky e sobretudo a verdadeira máfia feminina liderada sua mãe/manager. Posso assegurar-vos que é um adversário temível..lembram-se do Joe Pesci no Goodfellas? Estas mulheres são feitas da mesma fibras.

Claro que Micky não vai lutar sozinho. Como em tantos outros filmes do género será uma mulher a ajudá-lo. A dada altura surge na sua vida Charlene (a adorável Amy Adams, mesmo num papel mais duro que o costume) e ela vai servir como raio de Sol no que toca à sua família e carreira. É Charlene que o vai fazer perceber que para ter uma verdadeira "shot at the title" Micky precisa de largar o amadorismo familiar e profissionalizar-se. Esquecer o irmão e arranjar um treinador a sério.

Foi com Charlene que Micky deixou de ser um saco de pancada para se tornar um campeão e sim, leram bem, o tempo verbal é o correcto. Todas estas pessoas existem e quem assistiu à cerimónia dos Óscares deste ano pode ver os irmãos pugilistas no Kodak Theatre enquanto convidados das estrelas que os interpretaram.

É curioso como um desporto tão limitado a nível de apelo às massas seja tão prolífico no cinema...o boxe já deu Óscares a pessoas tão díspares como o Robert de Niro e o Sylvester Stallone. Uma possível razão é o dramatismo do que se passa dentro do ringue, com todo o sangue, suor e por vezes lágrimas (e por vezes pedaços de orelha, claro) e em The Fighter é mesmo dentro do ringue que a sua qualidade sobressai ainda mais: estamos perante um filme bastante bom mas que perderia quando em comparação com o Raging Bull ou mesmo o Rocky. As suas cenas de combate são, no entanto, as melhores que já vi.