quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

The Last Station

The Last Station:



Toda a gente conhece Tolstoy, o autor dos clássicos Guerra e Paz e Anna Karenina, já para não falar de tantos outros contos e escritos menos conhecidos mas não de menos qualidade. Já menos gente conhecerá Tolstoy, o filósofo social cujas ideias de abolição da propriedade privada e resistência pacífica, já para não falar da abstinência sexual, inspiraram Gandhi.

Eu era uma dessas pessoas, só conhecia a mais famosa vertente da vida de Lyev Nikolayevich Tolstoy até ter visto o mais recente filme de Michael Hoffman, um realizador que já trabalhou com muitos actores de renome mas que não sai, perdoe-se a expressão, da cepa torta. The Last Station é o título desse filme e o seu objecto é o tolstoianismo, a tal corrente filosófica, mais do que a sua obra literária.

Antes de seguir com a SMR deixem-me fazer um aviso: as interpretações principais deste filme estão a um nível muito alto, Helen Mirren e Christopher Plummer foram nomeados para Óscares mas não ganharam e Paul Giamatti não foi mas devia ter sido. Os actores secundários também não estão mal, mas aquele trio realmente bate tudo.

Voltando ao que estava a dizer. O tolstoianismo é definido como sendo uma espécie de anarquismo cristão derivado das interpretações bíblicas feitas por Tolstoy que, sendo de origens nobiliárquicas, rejeitou a propriedade privada e ainda em vida viu o seu movimento crescer a ponto de ter assustado a Rússia czarista e mais tarde a Rússia soviética. Em consequência das suas ideias, Tolstoy preparava-se para abdicar dos direitos de autor das suas obras, tendo com isso criado conflitos com a sua mulher Sophia Tolstaya, também ela de boas famílias e que não acompanhava os ideais do marido.

Este aspecto é fulcral para o filme, na medida em que a tensão criada por esta divergência do casal é fulcral para o avanço do filme, tal como o foi para a fase final da vida do autor. Pelo que o filme dá a entender (e acredito que assim tenha sido na realidade, tantos são os dados históricos relativamente a Tolstoy) o próprio fundador do movimento considerava-se “menos tolstoista que os tolstoistas” pelo que Sophia e Chertkov (o mais acérrimo defensor do movimento) tentavam puxar o autor cada um para o seu lado, ele por achar que Tolstoy era um ícon cujas acções tinham significado a nível global, ela por achar que sem o principal income da família Tolstoy não poderia providenciar a ela e aos filhos um futuro apropriado.

No meio desta barafunda toda está Bulgakov, o personagem que seguimos mais proximamente, também ele tolstoiano (ou tolstoianista?), também admirador do escritor mas alguém que ao longo do filme (não sei como terá sido na realidade, já que este personagem parece ser mais ficcionalizado) vai tentando conciliar ambos os lados da barricada. E tem, claro, um caso amoroso com uma seguidora do movimento que é perfeitamente dispensável na história, mas pronto.

É ele que assiste mais de perto aos últimos tempos da vida de Tolstoy e são os seus diários (bem como fotos e vídeos (!) feitos por jornalistas para registar a vida do escritor) que permitiram que esta história fosse feita. Estes diários, em conjunto os dos restantes habitantes de Yasnaya Polyana (há até uma piada recorrente ao longo do filme sobre o quanto se escrevia naquela casa) serviram de base ao romance que este filme adapta.

The Last Station parece um filme de época, um dos géneros de filmes que mais abomino e razão pela qual o vi tão tarde, mas que isso não vos desmotive. Ao contrário do costume aqui não vão ver histórias de amores impossíveis, aprenderão sim um pouco mais sobre a vida de um dos maiores escritores de todos os tempos e, ao mesmo tempo, saem da sala com o prazer de ter visto trabalhos de interpretação bem acima da média. Só por isso já vale a pena.

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