segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

The Man that Got Away

The Man that Got Away:


The Man that Got Away foi o vencedor do DAAD Short Film Prize e, por mero acaso de logísitca, o último filme que vi na Berlinale 2012. Trata-se de uma curta-metragem musical que nos conta de uma forma muito inovadora a história de Jimmy, tio do narrador e um dos muitos homens que viveram a sua homosexualidade em segredo.

Com o prémio que acabou por vencer vem uma bolsa de estudo para estudar cinema em Berlim e, presumo eu, uma maior facilidade de obter financiamentos para filmes futuros. Ora, não faço a mínima ideia qual foi o orçamento desta curta, mas posso dizer-vos que o que mais me impressionou na mesma foi a forma de contar a história com o mínimo recurso a cenários possível: a história do tio Jimmy e do seu encontro com Judy Garland é integralmente contada enquanto actores e actrizes descem a rampa de um qualquer silo-auto canadiano.

Eu que nem costumo gostar de musicais fiquei satisfeito com este. Para além da realização inventiva as letras das músicas são divertidas e as coreografias dançadas de uma forma tão (propositadamente?) trapalhona que se tornam interessantes. O único grande problema é ter-se esticado demais...ao contrário de tudo o que até então se estava a passar, o último capítulo da história do tio Jimmy é contado tipo dança contemporânea, sem música e durante demasiado tempo. É uma pena, pois acaba por manchar o que poderia ter sido uma boa despedida da Berlinale.

Loxoro

Loxoro:



Já há vários anos que conheço a obra do escritor peruano Mario Vargas Llosa. Nos seus livros este autor costuma ter histórias individuais com eventos históricos e foi com isso que conheci alguma da realidade peruana. A realizadora de Loxoro, Claudia Llosa, é sobrinha do grande escritor e faz com os seus filmes um trabalho semelhante. Em La Teta Asustada mostra o Perú rural e com Loxoro dá-nos a conhecer a realidade transexual da capital do país, Lima.

Não é a primeira vez que digo que no formato de curta-metragem o drama não funciona tão bem. O ser humano necessita de tempo para sentir empatia e sem empatia pelos protagonistas não se consegue contar uma história tão triste como esta. A busca de Makuti pela sua "filha" Mia seria perfeita para uma eventual longa que, se alguma vez existir, me terá como espectador.

Isto porque fiquei bastante impressionado com o estilo de realização. Claudia Llosa mostra uma grande proximidade com a realidade que retrata (fruto de muita investigação, de certeza) e as dificuldades por que aquela comunidade tem de passar (ao ponto de terem de falar numa língua própria, o Loxoro que dá nome ao filme) são tristemente perfeitas para um filme, mas por agora só temos mesmo uma pequena introdução.

Loxoro ganhou o Teddy Award para melhor curta-metragem com temática LGBT. Espero que daqui a uns anos uma longa com o mesmo tema possa ganhar prémio semelhante.

Licuri Surf

Licuri Surf:



Ora aqui está uma coisa que nunca me tinha acontecido. Enquanto via esta curta, vencedora de uma menção honrosa da Berlinale, fiquei com a ideia (mas não a convicção) de que se tratava de um documentário mas ao ler o seu resumo nada indica que tal o seja. Em que ficamos?

Vou avançar para a teoria do documentário, e dentro dos documentários um surf-film bastante fora do comum. Licuri é o nome do nosso narrador, um membro da tribo Pataxó, nativa do estado brasileiro da Bahia. O que torna a sua história interessante é a grande paixão da sua vida, o surf.

Normalmente associamos a prática do surf com caucasianos de classe média-alta/alta, com equipamento caríssimo e muitos autocolantes publicitários. Ainda mais, os surf-films costumam ser baseados em surfistas profissionais cuja vida é viajar pelo mundo à procura da onda perfeita. Aqui a realidade é totalmente diferente e foi isso que me fez gostar tanto de a conhecer.

Licuri não é o único pataxó a surfar as ondas da Bahia. Ele e alguns membros da sua tribo vivem junto à costa e desde crianças que têm as ondas como principal companheiro de brincadeiras. Não precisam de pranchas caras - um pedaço de madeira ou de esferovite basta para aprender e mais tarde usam as pranchas feitas localmente - nem de equipamento dispendioso, bastam uns calções e estão prontos para a acção. Creio que nem sequer vi leashes, mas não posso garantir.

Para além de nos apresentar a cena surf local, Licuri Surf mostra-nos também uma surf-trip deste grupo tão improvável. Em vez de Bali vão até ao estado de São Paulo, onde as ondas são mais fortes que na Bahia, e em vez de aviões usam uma carrinha a cair de podre. Licuri Surf é um interessante testemunho sobre uma sub-cultura muito específica e enquanto tal são 15 minutos muito bem passados mesmo para aqueles que, como eu, não se conseguem pôr em cima de uma prancha.

Rafa

Rafa:


A 18 de Fevereiro de 2012 João Salaviza entrou no restrito grupo de cineastas que já ganharam os grandes prémios dos dois maiores festivais de cinema da Europa. Depois de com Arena ter ganho a Palma de Ouro de Cannes (em 2009) para melhor curta-metragem, venceu agora em o Urso de Ouro da Berlinale, novamente para melhor curta-metragem.

O realizador considera Rafa a terceira parte de uma trilogia iniciada com Arena e continuada por Cerro Negro, de 2011. Devo começar por confessar que não vi a segunda destas três curtas, mas no que toca a Rafa e Arena não posso deixar de concordar que existem pontos em comum. Apesar de não terem uma história em comum e não se encontrarem na mesma realidade geográfica, sem dúvida que Rafa poderia ser um vizinho do protagonista de Arena, tal como este poderia ser o desconhecido pai do sobrinho de Rafa.

Interpretado por Rodrigo Perdigão (um não-actor cuja escolha é tão acertada que nem deve ter tido de representar), Rafa é um miúdo de 13 anos que vive na Margem Sul com a mãe, a irmã (Joana de Verona, que tinha visto antes em Como desenhar um círculo perfeito) e o sobrinho. Um dia a mãe é detida por conduzir sem carta e Rafa põe-se a caminho da esquadra para a trazer de volta a casa.

Sendo eu nativo de Lisboa é natural que consiga aprofundar-me mais sobre o filme do que se este tivesse outra origem qualquer. O que mais me agradou em Rafa é precisamente o oposto do que me fez dizer mal de Tabu ou de tantos outros filmes portugueses: nesta curta os personagens falam como portugueses normais (em. vez. de. falar. assim.), comportam-se como portugueses normais e reagem como portugueses normais. Ao contrário do típico realizador português, que parece viver numa redoma de vidro em que só os intelectuais podem entrar, nota-se que João Salaviza vive no mesmo país que eu conheço e de que tanto gosto. Ao mostrar as nossas falhas mostra também o nosso charme.

Dito isto, tenho de fazer uma menção à forma como Rafa acaba. É um final abrupto e aberto, mas que - dadas as incógnitas que deixa - acaba por não ser o mais adequado. Ao contrário de outras curtas premiadas que vi na mesma sessão (e que vou analisar daqui a uns minutos) Rafa peca por ter 3 ou 4 minutos a menos. Fora isso, 5 estrelas e prémio bem atribuído. Sou só eu que estou ansioso por ver uma longa deste realizador?