segunda-feira, 12 de abril de 2010

The Blind Side + Date Night

The Blind Side:

Respondendo logo à pergunta: não, não merecia o Óscar. Na minha opinião, roubaram a Gabourey Sidibe para o dar à Sandra Bullock, uma espécie de Robin Hood ao contrário. Sim, Robin Hood. Robin Hood porque onde o Precious trata de pobreza real, crua e feia, neste The Blind Side a pobreza é falsa, polida e quase que romantizada.

Mas avancemos com a SMR. Devo confessar que achei o filme melhor do que estava à espera, mas não deixa de ser um trabalho genérico, daqueles perfeitos para passar pela TVI num qualquer Domingo à tarde.

A história é sobejamente conhecida...Big Mike (Quiton Aaron) é um jovem negro (ou afro-americano, como a brigada do politicamente correcto preferiria) com um background de pobreza, droga e violência. Nunca se percebe bem como, mas é retirado à família e cai quase de pára-quedas (numa das muitas questões que teria dado jeito terem explorado mais a fundo) numa escola privada, onde estudam os filhos de Leigh Anne Tuohy (sim, a nossa Sandrinha), uma mulher sulista com o chamado pelo na venta e que o decide adoptar.

A partir daí acompanhamos as relações familiares dos Tuohy's, mas infelizmente tal nunca é feito com uma profundidade minimamente satisfatória. Vamos acompanhando a sua evolução no futebol americano (o verdadeiro Michael Oher ainda hoje é um jogador da NFL) mas todo o avançar do filme é despachado e são raros os momentos em que nos sentimos próximos daquele bom gigante.

Big Mike é realmente gigante, e também é bom, mas - e isto foi das coisas que mais me irritou no filme - também é mostrado como se fosse quase um atrasado mental. Há uma cena que me fez lembrar um episódio do Esquadrão Classe A em que o B.A. adormece sempre que ouve a palavra eclipse...aqui, o Big Mike não sabe jogar futebol, mas assim que ouve a palavra "família" ou "confiança" torna-se um candidato a MVP. Será por isso que o Michael Oher verdadeiro não gostou da forma como foi interpretado?

The Blind Side é um filme que não veria se não fosse pelo Óscar, um filme que confirmou que o Óscar não é merecido (até o puto Jae Head, que faz de filho da Sandra Bullock, tem uma interpretação mais marcante...e irritante) e um filme que podem bem esperar para ver numa ocasião em que não tenham realmente mais nada que fazer.



Date Night:


Steve Carrel e Tina Fey são, actualmente, dos melhores representantes da comédia norte-americana. Tê-los juntos é praticamente suficiente para vender um filme, e este Date Night sabe disso.

É por saber que não era preciso terem grande argumento para vender o filme que o filme, adivinharam, não tem grande argumento. Em Date Night eles são o casal Foster que, por causa de uma série de eventos um bocado a dar para o irrelevante, são confundidos pelo casal Triplehorn. O problema é que o casal Triplehorn anda a ser perseguido por uns mafiosos, por causa de uma série de coisas um bocado a dar para o irrelevante, e assim este Date Night torna-se, ao contrário do que o nome poderia indiciar, um filme de perseguições e gangsters.

E ainda bem! Porque a parte "familiar" deste filme é, de longe, o seu elo mais fraco...ao ponto de a dada altura (e quem vir o filme vai perceber o que estou a falar) entrar por uma perseguição adentro e destruir completamente o ritmo do filme.

Mas disse ali em cima e mantenho o que disse: numa comédia com o Steve Carrel e a Tina Fey o argumento não interessa lá muito, já que ao longo dos 88 minutos deste (curto) filme lá nos vamos rindo com uma série de cenas (improvisadas?) que estão naquele contexto mas poderiam estar em tantos outros. E mesmo as cenas com os convidados mais famosos (Mark Wahlberg, James Franco e Mila Kunis), que são dos pontos mais altos do filme, servem para adiantar a história mas poderiam ser inseridas noutro argumento qualquer.

Digo convidados porque este Date Night é mesmo um filme de e para os dois protagonistas. Tem o mérito de ter a melhor conjugação entre um strip-tease e uma robot dance de sempre, mas de resto é - como julgo que já disse - genérico. Uma comédia divertida, mas que não atinge o patamar (elevado) em que as expectativas colectivas a tinham colocado.

domingo, 11 de abril de 2010

Away We Go

Away We Go:


O Sam Mendes é um realizador que criou a sua reputação logo ao primeiro filme. Quem não se recorda de uma ou outra cena do American Beauty? Desde então tenho-o acompanhado (acabei de notar que vi todos os filmes) e se houve filmes que não me agradaram por aí além (Road to Perdition), este é um bom regresso à forma.

Forma talvez seja a palavra errada, na verdade. Dá ideia de corrida, de resistência física. Este Away We Go não exige nenhuma resistência. Desde a primeira cena até à última é um filme doce, de um amor sincero e nada lamechas entre dois adultos, com problemas de adultos e dúvidas que adultos da idade e na situação deles também terão.

Seguimos este casal numa viagem pelos EUA (e Canadá) enquanto se dedicam a tentar responder a uma questão definidora da sua vida: "Onde é que havemos de ver nascer e crescer a nossa filha?". Passam por vários pontos e visitam vários amigos, tentando (re)descobrir-se e encontrar um sentido para a sua existência.

Juntem a isto o John Krasinski, um dos actores mais simpáticos desta nova geração. Já simpatizava imenso como ele na versão americana do The Office, mas podia ser do personagem. Aqui confirma que é realmente um actor extremamente empático e daqueles que dão vontade de ir ver um filme só porque ele entra. Ele e a Maya Rudolph fazem um casal daqueles que todos gostaríamos de ter no grupo de amigos.

Um filme realizado com uma leveza maravilhosa, cujos protagonistas têm uma empatia invejável, que responde a dúvidas que todos teremos (ou vamos ter, se já forem mais velhos) e cuja banda sonora é daquelas que dá vontade de ouvir fora do cinema só pode ter a minha recomendação. Vejam e sintam-se bem.

(Ah! E ainda é instrutivo, aprendi uma nova forma de descobrir se uma rapariga está gravida)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Flickan som lekte med elden + As maltratadas

Flickan som lekte med elden:



Também conhecido em Portugal como Millenium 2: a rapariga que sonhava com uma lata de gasolina e um fósforo (sendo que o título sueco é bem mais pequeno: A rapariga que brincou com o fogo), estamos aqui perante a adaptação cinematográfica do segundo livro das aventuras de Lisbeth Salander, personagem que tem sido unanimemente considerada como uma das melhores a surgir na literatura do início deste século.

Já na SMR ao primeiro filme tive oportunidade de dizer que li o(s) livro(s) e adorei a saga. Mas, ao contrário do que se passou na primeira adaptação ao cinema, este Flickan som lekte med elden não me convenceu enquanto obra autónoma.

É que enquanto que no primeiro me lembro de achar que mesmo não se tendo lido o livro poder-se-ia apreciar o filme, neste acho que não fosse o prazer de ver as cenas que já tinha lido transportadas para o grande ecrã não teria ficado minimamente satisfeito com a experiência. E a verdade é esta...fui ver o filme com a mesma companhia com que vi o primeiro, alguém que não leu os livros, e - ao contrário do primeiro - detestou este.

Eu não chegaria ao ponto de usar um verbo tão forte. Não é um filme para detestar, mas se não leram o livro e - principalmente - se não viram o primeiro filme, são capazes de ficar completamente perdidos por causa das duas principais falhas do filme: quase não nos dá contexto, e muitas das cenas surgem (aparentemente) sem grande sequência lógica.

É esse o mal dos segundos filmes de trilogias, e ainda mais deve ser quando as obras-base são calhamaços de 600 ou mais páginas e temos de as passar para duas horas do ecrã. Mas enquanto que o Peter Jackson se safou maravilhosamente com o Senhor dos Anéis, este Daniel Alfredson (que - erro grave! - não é o mesmo realizador do primeiro filme) pegou numa saga que estava destinada ao sucesso cinematográfico e meteu-a na Liga de Honra das adaptações literárias.

Ao menos os actores são os mesmos e, regra geral, vão bem!


As maltratadas:



As maltratadas é uma curta-metragem portuguesa que, por partilhar alguma da temática do filme aqui de cima, tem sido exibida em conjunto nas salas de cinema. É uma prática que me agrada, já que é praticamente impossível a um espectador português ter oportunidade de ver curtas fora dos festivais.

Agora, para além disso não houve mais nada que me agradasse neste As maltratadas.

Não é que o tema não seja de valor, antes pelo contrário: espero eu que um dia venham a fazer uma longa que permita abordá-lo com mais profundidade, agora o que me assustou foi o amadorismo e a quase leviandade com que pegaram em duas questões tão importantes como a violência doméstica e o tráfico de mulheres.

É que tirando a boa interpretação da actriz principal, Camila Alves, tudo o resto me pareceu feito de uma forma muito parecida a como eu faria um filme, com a diferença que eu não tento fazer filmes.

Claro que a realizadora, Ana Campina, tem o mérito de ao menos ter abordado o assunto e a "desculpa" de (se calhar) ser a primeira obra, mas por favor...para a próxima tenta pelo menos arranjar actores que não me façam lembrar o Ninja das Caldas. De certeza que consegues arranjar alguém que fale espanhol...

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Arabian nights

Antes de mais tenho de vos confessar uma coisa. Descobri durante esta minha ausência que sou um grandessíssimo geek nisto dos filmes. Como é que descobri? Ao dar por mim no site da KLM a ver que filmes poderia ver no meu voo para o Dubai.

Sim, estive estes últimos 15 dias na Península Arábica e estes foram os filmes que vi:

Funny People:



Uma comédia do Judd Apatow com o Adam Sandler no principal papel. É uma comédia que dá para rir quando é para ir, consegue ser séria no tratamento do principal drama do cómico George Simmons personagem principal, mas que se perde no último terço com uma história amorosa que apesar de não ser totalmente forçada (até faz sentido, algo raro neste tipo de filmes) mas distrai-nos de outras histórias mais interessantes.

Destaque, positivo, para o Seth Rogen, que faz um papel bastante agradável, e para as várias cenas de stand-up (verdadeiro) que vão aparecendo ao longo do filme.


The September Issue:



Este documentário tem a estranha (e acredito que irrepetível) honra de ter sido visto em duas metades e ambas em aviões, uma a caminho de Nova Iorque o mês passado e a outra agora, algures nos céus das Arábias.

Só por isto já seria memorável, mas o filme em si também é interessante. Não é nada de maravilhoso (pelo menos para mim, que não me interesso nada por moda...talvez quem goste vá amar), mas é interessante. Seguimos Anna Wintour, a editora da Vogue americana, enquanto se prepara a edição de Setembro que, fiquei a saber é a mais importante do ano.

O que se vai acompanhando são sessões fotográficas, desfiles de moda e outras coisas que não me interessariam sobremaneira noutro contexto, mas aqui serviram para me mostrar que este mundo não é só glamour, às vezes também é preciso trabalhar, e esta senhora mete todos na linha.


The Proposal:



Perante um dos últimos filmes da agora vencedora de um Óscar de Melhor Actriz, Sandra Bullock, ao sair da sala de cinema do meu Brilliance of the Seas (sim, tem uma sala de cinema dedicada) fiquei mesmo com vontade de ver o The Blind Side.

Quero vê-lo porque não percebo como é que uma actriz tão limitada e que faz filmes tão mentecaptos como este consegue ganhar um prémio que supostamente tem a ver com mérito. Deve de ser uma interpretação do caraças!

Aqui, a história é do mais manhoso que há e faz algo que me irrita seriamente: leva-nos ao colo o tempo todo. Eu consigo (e gosto) de pensar durante os filmes, não é preciso dizerem tudo; os vossos espectadores não são atrasados! Ou espera aí...se calhar são...para estar a ver isto!

Não vejam, mas se virem preparem-se para ficar traumatizados pela cena mais forçada dos últimos tempos e que envolve a nossa amiga Sandra a dançar ao som da Get Low, do Lil' John acompanhada pela avó do seu namorado/marido de eleição, interpretado pelo único actor menos versátil que a Sandrinha.

Não, não é o Matt Damon, é o Ryan Reynolds.


Play the Game:



No dia seguinte manteve-se a temática geriátrica no cinema do navio. A que é que tivemos direito? A um filme que nem em DVD saiu (e ainda bem!) sobre um player que ensina o avô – sim, o avô – a engatar as velhas lá do lar.

Já algum de vocês leu a review ao The Room? Aquele que eu apelidei de pior filme de sempre? Pronto, este é quase tão mau. Não consegue ser pior, mas tem uma desvantagem...não tem piada.

Ora, imaginem um filme como o The Room sem piada. É o inferno, não é? É sim senhor! E porque é que eu não saí desse inferno? Porque eu por vocês – meus leitores do coração – aguento todas as estopadas até ao fim.

E ainda bem que aguento, porque a única coisa que salva este filme é mesmo o twist final, que estava bem construído e foi bastante inesperado. Ou então era só eu que já tinha desligado o cérebro para tentar nunca me recordar das constantes referências às proezas sexuais do idoso.


Julie & Julia:


Há talentos que não se conseguem esconder. O da Meryl Streep é um desses talentos e este Julie & Júlia uma excelente prova para a minha afirmação anterior.

Em Julie & Julia seguimos duas histórias paralelas, com 40 anos de separação. Julia Child (a tal senhora chamada Meryl Streep) foi a esposa de um diplomata americano colocado no Paris do pós-2ª Guerra Mundial que, enquanto lá esteve, aproveitou para aprender a cozinhar “à francesa” e decidiu publicar um livro que (aparentemente) foi revolucionário para as donas de casa americanas. Julie Powell (Amy Adams, actriz de que gosto muito, mas que aqui não vai muito bem) é uma blogger que decidiu ter como tema não as criticas de cinema mais fixes da Internet (isso sou eu, claro!) mas o cozinhar cada uma das 524receitas do tal livro em 365 dias.

A história não me conseguiu cativar...é curioso notar que o aspecto que mais me interessou foi mesmo a evolução do blog culinário, que teve bastante mais leitores que o meu (mas eu aposto em qualidade, não em quantidade). Já imaginaram o que seria estes meus disparates transformados em filme?

Anyway, parando com o devaneio...O filme é OK, mas a interpretação da Meryl Streep é, tal como a própria Julia Child, enorme. O estilo da senhora não me agrada totalmente, mas é fantástico ver como uma actriz se consegue transformar para ser quem interpreta.


Le Premier Jour du Reste de Ta Vie:


Mais uma recomendação de um leitor deste espaço, o meu grande amigo André (leiam o blog dele, L’Éponge Culturelle). Estamos aqui perante o último filme do realizador francês Rémi Bezançon e perante o filme que mais gostei dentro da mixórdia cinematográfica™ que é este post.

O mais giro é que não vos sei dizer muito bem porque é que gostei do filme; a banda sonora é excelente, as interpretações são bastante boas e a história (evolução de uma família ao longo das décadas) é daquelas que dá para apostar que vou gostar (daí a sugestão do André)...mas não consigo apontar algo como o factor que me fez realmente gostar.

É somando tudo que me apercebo que o todo é melhor que as partes e que está aqui um talento que desconhecia mas que vou querer explorar no futuro.


DeUsynlige:


24h depois de ver o Le premier jour... e o considerar o melhor deste mega-post, vi o De Usynlige, que poderia considerar o melhor deste mega-post.

Só não lhe dou essa qualificação porque, sendo igualmente bom, é bastante mais deprimente. Não costumo ter nada contra filmes deprimentes, antes pelo contrário, mas neste caso o critério para desempatar estes dois filmes, que teriam a mesma nota se as reviews fossem objectivas, é mesmo o ter saído mais bem disposto do primeiro.

Avançando, a história que aqui seguimos é a de Jan Thomas, um rapaz que cometeu um erro grave no passado e que não consegue obter a sua devida (e a meu ver merecida) redenção. É essa a questão central do filme: depois de já termos pago pelos nossos pecados, deveremos continuar a ser perseguidos por eles? Eu acredito que não, mas não sei o que faria se estivesse na posição de Agnes, que por causa dos pecados de Jan nunca mais viu o filho.

Estamos perante um bom filme, de uma cultura cinematográfica que praticamente desconhecia (é a primeira SMR a filmes noruegueses que faço) e que, generalizando, recomendo pela sua qualidade estética e profundidade com que aborda os seus temas.


Micmacs à tire-larigot:



Na viagem de regresso não fui ao site da Air France, mas acabei por encontrar o novo filme do Jean-Pierre Jeunet, Micmacs à tire-larigot, como uma das opções e não me deixei adormecer antes de o ver.

Micmacs são, pelo que percebi, quinquilharias e tire-larigot é o nome de uma lixeira (ficcional) onde um grupo de outsiders típicos de JPJ (interpretados por alguns dos seus colaboradores mais frequentes) vivem. Neste surreal grupo podemos encontrar um génio na construção de robots com materiais reciclados, uma rapariga que consegue contabilizar tudo, uma contorcionista ou um ex-recordista do Guiness na categoria homem-bala.

Mas o protagonista é Bazil (Danny Boon, a substituir Jamel Debbouze, que faria um melhor papel, na minha opinião), que viu o seu pai morrer por causa de uma mina anti-pessoal e que tem uma bala alojada no cérebro (gajo sortudo, portanto!). Bazil deseja vingar-se dos fabricantes das armas que lhe trouxeram tanto azar e pede ajuda aos Micmacs.

O que se segue é uma espécie de thriller cómico (será que se consegue vingar-se?) mas tipicamente JPJ. Este é um dos raros realizadores que tem um estilo tão próprio que é facilmente identificável, e aqui é esse estilo que se sobrepõe: a dada altura estava muito mais interessado nos pormenores que na história em si.

Um filme que hei de rever se estrear nas salas portuguesas.